Guilherme Mazer Engenheiro Agrônomo

Agricultura familiar é a “resposta” para o setor no Brasil, diz pesquisador

Segundo especialistas, o agronegócio é a alavanca financeira do país, mas precisa ser mais “social” e sustentável.

O Dia do Agricultor, que é comemorado anualmente em 28 de julho, surgiu em 1960 com a criação do Ministério da Agricultura durante a gestão de Juscelino Kubitschek. Hoje, ele serve como marco para recordar os desafios do campo e do setor, um dos mais importantes para a economia do Brasil.

Segundo especialistas, o agronegócio é a alavanca financeira do país, mas precisa ser mais “social” e sustentável.

Em entrevista ao EFEAgro, o engenheiro agrônomo Guilherme Mazer* afirma ser preciso olhar com mais atenção para os produtores rurais familiares, que atualmente são os responsáveis por resolver a demanda de alimentos dentro do país.

“O quadro geral da agricultura é resultado de um processo de concentração de terras, subsídio estatal, domínio das multinacionais e degradação ambiental, o que tem sido ancorado pelo poder político da elite agrária brasileira. O panorama atual do agronegócio ainda não foi alterado”, defendeu.

Embora exista um domínio da produção e das terras por parte dos latifundiários, mais de 80% das propriedades rurais pertencem às famílias que vivem do campo, isso de acordo com o último Censo Agropecuário. Contudo, a área que ocupavam não chegava a ¼ do total de terras cultiváveis.

“A agricultura familiar é quem dá respostas para superação das contradições do agronegócio. A sociedade demanda alimentos de qualidade, conservação ambiental, fim do inchaço das periferias das médias e grandes cidades”

Para ele, os movimentos rurais e ecológicos, além dos pesquisadores, “avançam no debate da sustentabilidade como um outro modo de se relacionar com o meio ambiente, social e economicamente”.

Como exemplo de ações agrícolas responsáveis, Mazer citou os assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), no Rio Grande do Sul, que são os maiores produtores de arroz orgânico na América Latina.

A agricultura familiar é vital para a segurança alimentar brasileira. De acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, esse tipo de trabalho é responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros, dentre os quais se destacam a mandioca (87%), feijão (70%) e leite (58%).

“O agronegócio produz commodities, desigualdade e degradação ambiental. A agricultura familiar e camponesa produz alimentos, água limpa, biodiversidade e gera mais emprego proporcionalmente”, ressaltou o pesquisador.

Apesar de empregar cerca de ¾ dos trabalhadores do campo no Brasil, a agricultura familiar ainda recebe pouca atenção governamental, embora algumas melhoras sejam perceptíveis. No Plano Safra 2011/2012, a agricultura familiar recebeu 16 bilhões de reais, ante um valor 7 vezes maior para o agronegócio. Para a Safra 2017/2018, o valor deve chegar a 30 bilhões de reais.

“O agricultor necessita do Estado para ter um pedaço de chão, crédito, assistência técnica e ajuda na comercialização de seus produtos, mas o Estado tende a valorizar somente os grandes empresários do agronegócio”, acusou Mazer.

De acordo com o engenheiro agrônomo, o desafio está na reconquista de algumas medidas que existiram no Brasil, como o Programa de Aquisição de Alimentos-PAA, descriminalização dos movimentos sociais agrários, não afrouxamento das regras para liberação de agrotóxicos, desconcentração de terra e investimento na produção de orgânicos, onde o Brasil pode despontar. Esse setor, por sua vez, movimenta anualmente 2,5 bilhões de reais, com um incremento de 30% de participação.

A agricultura familiar está presente em muitos modos de viver, o que amplia a manutenção da diversidade cultural brasileira. No estado de São Paulo, por exemplo, 150 mil agricultores familiares estão estabelecidos em diferentes regiões, além das tradicionais, como assentamentos, quilombos e áreas indígenas.

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*Membro do Programa Paranaense de Certificação de Produtos Orgânicos, trabalha no Laboratório de Mecanização Agrícola (Lama), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no Paraná.

 

Twitter: efeagrobrasil