DIA DO AGRICULTOR

Agricultor enfrenta 2015 “desafiador” em meio a crise econômica e mudanças climáticas

Alta nos juros, seca, chuvas fora de época e aumento do custo dos insumos pressionam o ganho do agricultor este ano

Foto: EFE/Sebastião Moreira.

Responsável por cerca de um quarto do PIB brasileiro, a agricultura e o agronegócio vivem um dos momentos mais delicados da economia brasileira, em meio a incertezas econômicas e climáticas.

“O agronegócio está muito fraco devido ao aumento do custo de produção e o próprio preço do produto final. O dólar, os problemas da seca e a situação econômica do Brasil estão comprometendo nossa meta de produção anual, a venda está fraca e a saída, portanto, está difícil”, avalia o agricultor e produtor de grãos do interior de São Paulo, Roberto Felippe de Moraes.

Segundo ele, as atuais condições tornaram a atividade “imprevisível” e dependente de outros países, fazendo com que o agricultor diminua sua produção com o intuito minimizar seus riscos. Apesar disso, segundo o boletim de grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de junho de 2015, a área plantada desse tipo de cultivo teve um aumento de 1,1% este ano com expectativa de safras de 204,3 milhões de toneladas segundo o IBGE.

Os números, no entanto, escondem um cenário de baixa lucratividade para o agricultor, como explica o coordenador de economia da Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA), Renato Conchon.

“Safra recorde não é necessariamente faturamento recorde. Não é porque vamos ter mais safra que necessariamente teremos mais receita. Temos que ter cautela com isso. A rentabilidade do produtor tende a cair”, explica o economista. Segundo ele, a mesma alta do dólar que tem compensado os baixos preços das commoditties agrícolas tem pressionado o valor dos insumos agrícolas.

“A chuva atípica da região preocupa, pois já houve chuvas com ventos fortes, granizo, destruindo cultivos, inclusive o protegido”

“O agricultor, na safra passada, comprou insumos com o dólar a R$2,60 e agora está comprando com o dólar a R$ 3,20 – um aumento de 46% nos fungicidas, e de 25 a 30% em inseticidas e sementes.  O aumento de custos veio à galope, coisa que não se refletiu nos preços internacionais das commodities” explica o economista da CNA.

Segundo ele, o que tem aliviado os produtores é o preco desvalorizado do real, que alavanca os ganhos na exportação. O mesmo fator é apontado pelo também economista e CEO da consultoria MA8, Orlando Merluzzi para o equilíbrio da balança comercial brasileira.

“Apesar da vulnerabilidade do agronegócio frente às crises econômicas, desde que o câmbio permaneça apreciado em favor do dólar e com a excelente produtividade interna, o setor agrícola no Brasil pode funcionar como hedging para a economia”, avalia Merluzzi.

Na avaliação dele, o que deixa o produtor rural brasileiro inseguro é a falta de uma política consistente de fomento ao setor que permita uma visão de médio e longo prazo. Em abril deste ano, o Índice de Confiança do agronegócio chegou a 86,2 pontos ante 104,3 pontos no mesmo mês do ano passado – o pior resultado da série até então.

Agricultura

“Um setor tão importante para a economia brasileira não pode viver a espera de planos-safra anuais. O produtor precisa ter as condições mínimas para planejar. É necessário a definição de um Plano Safra Plurianual”, defende o economista. O plano plurianual é um dos projetos do ministério da agricultura, que tem buscado dar mais segurança ao produtor apesar das perdas climáticas recentes.

No caso do café, por exemplo, a seca no início do ano causou perdas de até 30% na produção, que sofre com novos impactos na colheita atingida pelas chuvas fora de época provocadas pelo El Niño durante este inverno. Até o momento, cinco Estados têm atraso na colheita devido à chuva de acordo com levantamento da CNA.

A situação preocupa outros produtores. Consultor agrícola e gerente de uma loja de insumos agrícolas, Joaquim Ortiz conta que as chuvas deste inverno já trouxeram prejuízos para a região de São Miguel Arcanjo, inclusive com casos de incidência de granizo.

“A chuva atípica da região preocupa, pois já houve chuvas com ventos fortes, granizo, destruindo cultivos, inclusive o protegido”, conta o comerciante que já sente uma queda nas vendas, forçando-o a adotar novas estratégias.

“As estratégias serão focar em mais clientes. Ou seja, vamos atender mais clientes para diminuir riscos e as grandes negociações serão feitas com garantias reais”, explica Ortiz.

A situação configura um cenário “desafiador”, como classifica o economista da CNA, Renato Conchon. Ele explica que a situação da agricultura não é como a da indústria, que já amarga uma retração de 4,5% em 2015 segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

“O que vemos é uma queda na rentabilidade com alta nas taxas de juros e, por isso, o agricultor que precisar buscar recursos vai pagar mais caro e corroer sua lucratividade”, explica o economista da CNA que destaca a importância do setor para a economia brasileira.

“O agronegócio é responsável por empregar 31% da mão de obra do Brasil e pelo superávit da balança comercial. Sem o agronegócio, ao longo da ultima década, todos os anos teríamos déficit na balança comercial”, lembra o economista, que acredita numa retomada do crescimento a partir de 2017 “a depender do ajuste fiscal sair ou não do papel”.

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