Contrabando Agrotóxico

Atividades ilegais ameaçam indústria de defensivos e saúde da população

Práticas como contrabando e falsificação de agroquímicos favorecem organizações criminosas, danificam plantações e expõem público à contaminação

EFE / Reprodução Hospital de Câncer de Barretos

A importação ilegal e fabricação irregular de defensivos agrícolas têm se tornado foco das preocupações de autoridades do campo, isso por afetar direta e indiretamente a agricultura, ao interferir com a indústria de agroquímicos, a arrecadação do poder público e principalmente com os consumidores, que sofrem as consequências da toxicidade dos produtos.

Por conta dos perigos, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) se aliou às Polícias Federal e Ambiental em uma campanha que visa combater esta atividade criminosa, a qual acusa estar ligada às “violentas” facções e ao comércio ilegal de drogas e armas de fogo.

Entre os anos de 2001 e 2016 foram apreendidas mais de 654 toneladas de agrotóxicos ilegais, segundo dados colhidos pelo Sindiveg, isso corresponde à quantidade necessária para a preservação de 5,8 milhões de hectares de área cultivável.

“As plantações que usam esse tipo de defensivo ficam praticamente devastadas: buscando uma pequena economia, o produtor perde toda a safra. Além disso, podem causar danos à população, tanto pelo consumo de alimentos contaminados como pelo contato involuntário, durante o transporte ilegal”,  alerta o gerente da Sindiveg, Fernando Marini.

 

Contrabando e falsificação

As rotas de entrada ilegal de defensivos no país são constantemente trocadas, dificultando a fiscalização, e abastecendo uma criminosa indústria de agrotóxicos. “Atualmente, os químicos são altamente concentrados. Infelizmente, isso possibilita levar, numa mochila, material para aplicar numa fazenda inteira”, conta Marini.

A maioria dos agrotóxicos ilegais que entram no país são fabricados na China ou na Índia, países com uma grande massa populacional e baixa fiscalização. De lá, seguem para a região do Rio da Prata, entrando no Brasil pela fronteira entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul, ou passam pelo Canal do Panamá e chegam à América pelo Chile, seguindo por países a oeste do Brasil, como Paraguai e Bolívia. A principal porta de entrada é a cidade de Foz do Iguaçu, no estado do Paraná.

O mercado ilegal surge pelo desejo, por parte dos produtores, de economizar na compra de defensivos. Pode haver uma variação no preço de até 50%. Entretanto, a qualidade dos produtos contrabandeados é duvidosa, o que pode fazer a economia não valer a pena. “Alguns são confiáveis, mas chega muita ‘porcaria’, principalmente porque não é feita a purificação do material. Assim, ele fica mais barato, é menos eficaz e expõe o produtor aos riscos de perder sua plantação”.

O contrabando equivale à metade do comércio ilegal, dividindo espaço com a falsificação, ou seja, produção de defensivos sob condições inseguras e irregulares, que recebem marcas de grandes empresas do setor. “Achamos um caso em que o mesmo produto continha os logotipos de duas concorrentes no mercado de agrotóxicos”, alerta Marini.

A região de maior ocorrência desse tipo de laboratório é o noroeste paulista, representado pelas cidades de Ribeirão Preto, Franca e São José do Rio Preto. Muitos dos agricultores prejudicados são ameaçados quando demonstram insatisfação, o que impede a popularização das denúncias.

 

Logística

As manobras dos criminosos para driblar a fiscalização são das mais diversas, partindo de manipulações burocráticas a até mesmo transporte irregular em sistemas utilizados pela população, a fim de despistar as autoridades.

“Muitos defensivos ilegais são vendidos pela internet e enviados por serviço de correios e existem empresas, nos mais diversos setores industriais, especializadas em emitir ‘notas quentes’, de produtos correntes, em operações ‘frias’, de conteúdo ilegal”, destaca Marini.

O transporte é uma das etapas que mais expõem a população aos tóxicos. “Encontramos dois casos que investigamos que são inusitados: um em que os defensivos eram levados em ambulâncias, que depois eram utilizadas pelos serviços de saúde, e outro que transportava os produtos escondidos em sacos de farelo de soja”.

Por fim, há exemplos em que o próprio contrabando se funde com culturas criminosas. “No Nordeste, os defensivos eram utilizados para incrementar o cultivo de maconha, a fim de aumentar sua produtividade”.

Twitter: efeagrobrasil