PEIXES

Cultivo de arroz e mineração ameaçam peixe recém descoberto no RS

A espécie tem curto ciclo de vida, estimado em seis e sete meses, e dependem da estabilidade climática para sua perpetuação, além de serem sensíveis à ação humana.

Descoberta por um grupo de ictiólogos gaúchos na bacia do Rio Camaquã, nos municípios de Encruzilhada do Sul e Canguçu (RS), o Austrolebias camaquensis, uma nova espécie de peixe, já se encontra em risco de extinção.

O alerta foi feito nesta sexta-feira (15) pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que apoiou o estudo desenvolvido dentro do Projeto Peixes Anuais do Pampa, do Instituto Pró-Pampa.

A espécie tem curto ciclo de vida, estimado em seis e sete meses, e dependem da estabilidade climática para sua perpetuação, além de serem sensíveis à ação humana.

“O uso da área em que a espécie é encontrada para fins agrícolas, como o cultivo do arroz, é a principal ameaça à espécie. Porém, fenômenos climáticos, como o El Niño, e um plano de mineração no Rio Camaquã também podem acabar levando-a a extinção”, explica Matheus Volcan, responsável técnico do projeto.

Pertencente ao grupo dos “peixes anuais”, aqueles que vivem em ambientes isolados como pequenas poças, que secam nos períodos de estiagem e levam todos os peixes adultos à morte, o Austrolebias camaquensis foi formalizado em outubro na Revista Zootaxa, periódico científico brasileiro.

Por ser uma espécie microendêmica, só é encontrada em um trecho de cerca de 20 quilômetros, o que também contribui para o estado crítico de sua existência.

“Esses peixes são de extrema importância para o equilíbrio do ecossistema pois são considerados topo de cadeia nas pequenas poças. Por outro lado, servem de presa para muitas espécies de aves e sua extinção pode resultar em grandes desequilíbrios ambientais, como por exemplo, a proliferação de insetos”, alertou Volcan.

Segundo o pesquisador, a solução para garantir a conservação da espécie seria recuperar esses habitats, além de criar uma unidade de conservação que proteja as poças onde são encontrados.

De acordo com a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes, essa foi a 164ª espécie descrita pelo Programa de Apoio a Ações de Conservação em 27 anos.

“Esse investimento à ciência brasileira iniciou em 1991 e se manteve constante ao longo de todos esses anos, porque a instituição acredita que o desenvolvimento científico é essencial para o Brasil e para a conservação de sua natureza”, avaliou a diretora.