MILHO

Etanol e exportação, os dilemas do excedente de milho no Brasil

Eficiência produtiva e precariedade logística levantam a questão do destino para o milho da safrinha, que deve apresentar queda

EFE/Wu Hong

Depois de um repentino “boom” do milho no Brasil, impulsionado principalmente pela chamada “segunda safra” ou safrinha, o montante produzido de milho no país deve diminuir. De acordo com dados divulgados pela Agroconsult nesta segunda semana de janeiro, a safra 2017/2018 deve somar 91 milhões de toneladas de milho, dos quais 65,6 milhões podem ser da safrinha.

Ainda que um pouco menor que a produção da safra anterior de 2016/2017,  que somou mais 97 milhões de toneladas, os dados atuais representam um respiro para o produtor.

Nos últimos anos, o Brasil se tornou o terceiro maior produtor e segundo maior exportador de milho a nível global, consolidando-se como o maior concorrente dos EUA nesse mercado.

Segundo projeção mais recente do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o país deve permanecer nesse cenário pelo menos até 2025, mantendo-se à frente de países com tradição no cultivo, como Argentina e Ucrânia.

Entretanto, as dificuldades logísticas do país têm travado a efetivação de todo seu potencial. No ano passado, após a safrinha, era comum ver nos campos do maior produtor de milho do país (28,5%), Mato Grosso, uma grande quantidade do grão exposta ao ar livre.

Apesar da crescente produção, o estado não consegue escoá-la perfeitamente para outras unidades da federação nem exportar para o exterior. Em 2014, por exemplo, segundo a Aprosoja Brasil, o custo para exportar três sacas de milho do MT para o exterior era igual ao valor obtido com a venda de duas sacas.

Ainda com a possibilidade de aumentar a produção, o Brasil sente o produtor desanimar. Contudo, vem crescendo o debate sobre a adoção do milho como matriz energética do país, sendo uma alternativa à cana-de-açúcar para a produção do etanol, como no modelo dos EUA, que destina mais de 30% da produção à geração de combustíveis. Por outro lado, os produtores americanos têm se preocupado com o impacto do milho brasileiro no mercado externo, apesar da precária infraestrutura do Brasil.

Histórico e preocupação americana

A expansão do milho no Brasil decorre da migração, por parte do grão, das tradicionais regiões produtoras, como os estados de São Paulo e do Paraná, para o Centro-Oeste brasileiro. Economicamente inferior à soja, ele foi pensado como uma alternativa para sucedê-la.

Conforme dados do IBGE, a tecnologia desenvolvida permitiu a explosão da produção na última década. Avanços como o sistema de plantio direto e o desenvolvimento de métodos para reduzir a acidez do solo ajudaram o Brasil a alcançar a autossuficiência em milho na safra 2005/6 e a conseguir excedentes da ordem de 30 milhões de toneladas nos últimos anos.

Outro fator que impulsionou a produção foi o foco dos agricultores na “segunda safra” do milho, que é colhida entre junho, julho e agosto, em oposição ao período considerado ideal, no verão. De 2005 a 2015, por exemplo, a área para a safrinha praticamente quadruplicou, e sua representatividade para a produção nacional subiu de 22% para 64%.

O incentivo para a safrinha se deu tanto pela queda dos preços dos insumos nessa época do ano como pela menor procura do mercado nacional, que fica concentrada no Mato Grosso do Sul.

EFE/Wu Hong

Esse deslocamento do eixo de produção de milho ao longo do ano tem assustado os americanos. Segundo relatório enviado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos ao EFE Agro, por acontecer no inverno, a safrinha acaba concorrendo com a “primeira safra” do Hemisfério Norte, exportando entre os meses de setembro a janeiro.

Além disso, o estudo sugere que o Brasil prefere exportar o milho decorrente do milho safrinha, já que na safra principal, a estrutura escoadora do país dá preferência à soja, por possuir maior valor econômico. Assim, o milho fica em segundo plano nos portos do país e é usado para abastecer o mercado interno.

Em contrapartida aos dados da Agroconsult, a consultoria Datagro havia projetado que o milho safrinha deveria dobrar sua produção no país em até 8 anos. Segundo a Embrapa, ainda existem mais 10 milhões de hectares disponíveis para o milho suceder o cultivo de soja. E se o Brasil não produz mais milho é porque o escoamento é inviável economicamente.

 

Etanol e subprodutos

A principal alternativa que vem sendo discutida no país é a implantação dos excessos do milho como matriz energética para a produção de etanol, hoje dominado pela cana-de açúcar. A ideia, que tem como base o modelo dos Estado Unidos, tem se consolidado depois da abertura da primeira usina à base de milho no país, a FS Bioenergia, em agosto do ano passado.

Segundo a Associação de Produtores de Milho e Soja do MT, devem surgir mais usinas desse tipo ao longo dos anos, o que tem estimulado os produtores a tentar reduzir a produção de milho a curto prazo, algo que se reflete na previsão da Agroconsult.

Conforme disse um dos produtores, Elso Pozzobon, em agosto ao jornal O Estado de S. Paulo, a ideia é utilizar apenas algumas áreas no momento e corrigir outras, para que o potencial seja mais bem aproveitado no futuro.

Em consulta a um artigo científico da Piracicaba Engenharia, o EFE Agro constatou que a produção de etanol a partir do milho possui diversas vantagens em relação à cana-de-açúcar, como o maior tempo de armazenamento (2 a 3 anos), o alto rendimento (370 a 410 litros de etanol/tonelada, quase cinco vezes mais do que a cana) e a baixa exigência de qualidade.

Por outro lado, o milho não produz sua biomassa, como o bagaço da cana, que possibilita gerar a própria energia para o processo de transformação em álcool, além de ter um preço mais volátil no mercado internacional.

Usina de cana-de-açúcar. EFE/Sugar Estates Limited

Em virtude disso, o país tem mais facilidade de trabalhar com usinas do tipo flex, que são aquelas que operam com o milho durante a entressafra da cana, usando o bagaço como fonte de energia para as duas matrizes. Em países como Argentina e Paraguai esse modelo já é bem difundido.

Outro ponto interessante sobre o etanol de milho são seus subprodutos, como o DDGS (espécie de composto proteico utilizado para rações) e o óleo, que pode ser usado tanto para a alimentação humana como para a produção de biodiesel. No caso dos EUA, por exemplo, o DDGS chegou a ser mais importante economicamente do que o próprio etanol em alguns anos, como em 2013.

Segundo dados do USDA, a última safra americana produziu 430 milhões de toneladas de milho, dos quais 138 milhões foram destinados ao etanol, 175 milhões aos chamados “resíduos”, como o DDGS e 58 milhões para exportação, além de 37 milhões para a alimentação interna.

O departamento ainda declara que, a cada 3 kg de milho destinados para a produção de etanol, é possível produzir quase 1 kg de DDGS. Para o estudo da Piracicaba Engenharia, cada tonelada de milho pode gerar de 200 a 250 kg do composto, além de 20 a 25 kg de óleo.

Como principal exportador de carne do mundo, o Brasil pode utilizar os resíduos do milho para abastecer o próprio mercado interno de rações para gado.

Ainda existe a possibilidade de o milho aumentar ainda mais sua produtividade na transformação para o etanol, já que os EUA têm conduzido pesquisas que utilizem a planta toda do cereal, e não apenas a espiga.

Apesar de tudo, o etanol de milho ainda encontra boa resistência do setor bioenergético. Um dos principais motivos é a discussão ética de utilizar alimentos como meio para produzir combustíveis, num mundo em que 815 milhões de pessoas passam fome no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A União Europeia, por exemplo, proibiu a entrada de combustíveis de origem alimentar em seu território a partir de 2021.

Outro argumento contrário ao etanol do milho é o ecológico, já que, conforme estudo encomendado pelo estado americano da Califórnia, ele reduz a emissão de gases do efeito estufa em apenas 15% a 20% em relação à gasolina, redução pequena se comparado ao etanol de cana, cujo benefício varia de 40% a 60%.

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