ANÁLISE ANUAL

Expansão do trigo brasileiro será meta de pesquisadores e produtores em 2018

Apesar de ser uma cultura de entressafra, cereal é visto como importante para a economia e a segurança alimentar nacional

Foto: EFE/David Aguilar

Para reduzir o déficit de cerca de 6 milhões de toneladas/ano de trigo que precisam ser importadas, o crescimento da produção do cereal no Brasil é um objetivo latente para os agricultores, pesquisadores e empresários responsáveis pelo cultivo deste commoditie de entressafra.

“Boa parte das 6 milhões de toneladas de trigo que o Brasil importa atualmente vem da Argentina, mais por uma questão de quantidade do que de qualidade do alimento”, explicou ao EFEAgro o presidente do conselho deliberativo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Marcelo Vosnika.

Décimo maior consumidor de trigo do planeta, o Brasil, tradicionalmente conhecido por seu grande potencial agrícola, passa longe de figurar entre os principais produtores do cereal encontrado nos pães, biscoitos e massas.

O trigo é uma cultura de inverno que, em terras brasileiras, é cultivada durante a entressafra da soja, uma das mais valorizadas nacionalmente, o que normalmente relega a cultura do cereal a um segundo plano.

Segundo o último levantamento da Abitrigo, o país, que também é o maior consumidor da América Latina, demandou 11,7 milhões de toneladas no último ano, mais que o dobro dos 5,5 milhões produzidos nacionalmente a cada ano.

“No passado, o trigo brasileiro não servia para confeitaria, mas isso vem mudando de acordo com a crescente na qualidade dos últimos anos”, acrescentou Vosnika.

Até os anos 1990, quando a produção era comprada integralmente pelo governo brasileiro, a pesquisa em trigo estava focada em índices provenientes das quantidades produzidas; posteriormente, com a chamada “privatização” do trigo, que possibilitou que empresas particulares o adquirissem, a ciência agrícola se voltou para a qualidade dos grãos.

“Existem cultivares de trigo para os mais diversos fins, como massas biscoitos e pães. O Brasil evoluiu muito nesse sentido, o de segregar o trigo para cada fim, possibilitando que o trigo produzido aqui abastecesse as diversas demandas do mercado interno”, analisa o pesquisador da Embrapa Trigo, Eduardo Caerão.

Em relação à quantidade produzida no Brasil, o trigo vem numa crescente nos últimos anos, embora, neste ano, tenha começado a viver um problema pontual por problemas climáticos, como o estresse hídrico.

Segundo a Abitrigo, o país chegou a ofertar 60% de toda a demanda nacional, mas o estímulo à produção caiu pela inviabilidade dos preços no mercado internacional e pela guinada positiva da Argentina no mercado brasileiro.

“Atualmente, o preço das commodities caiu muito, o que inviabiliza o trigo no Brasil, mas o panorama tem de ser analisado a longo prazo, num escopo de ao menos 10 anos”, conta Vosnika.

Além disso, o executivo argumenta que “com a entrada do governo de Mauricio Macri, a Argentina quase triplicou a produção de trigo, que vinha sendo pouco estimulada, e entrou com força no Brasil”.

Para a Abitrigo, as duas culturas devem ser pensadas conjuntamente. “Deve ser observado o ciclo da propriedade, a interação entre as culturas. O trigo é importante para a soja, trazendo benefícios, por exemplo, no momento de adubá-la”, defende Vosnika.

Ainda assim, o setor investe em pesquisa para melhorar a qualidade e aumentar a produtividade do cereal no Brasil, apesar das condições climáticas desfavoráveis no país como um todo.

“Obviamente, as questões climáticas atrapalham o Brasil, já que o trigo é uma cultura de inverno, tanto que mais de 90% de nossa produção está concentrada na região Sul”, explica Coerão.

O pesquisador defende que, apesar disso, o setor possui muito potencial de crescimento, principalmente pelos estudos feitos por instituições científicas, como a Embrapa.

Entre as principais linhas de pesquisa da instituição, estão a busca por melhores características genéticas, que possam resistir a doenças e gerar um trigo de melhor qualidade, além de mudas que fisicamente permitam uma adubação mais eficiente.

“Nas décadas de 1970 e 1980, o rendimento médio das lavouras de trigo no Brasil era de 700 kg/hectare. Hoje, essa média chega a 2,4 t/ha, embora variedades desenvolvidas pela Embrapa cheguem a 6 ou 7 t/ha, o que demonstra o grande caminho que se tem pela frente”, relata Coerão.

E se for transgênico?

Sobre a transgenia, a Embrapa afirma que não existem variedades modificadas que sejam utilizadas comercialmente em nenhum lugar do mundo, mas que diversas instituições, incluindo a própria Embrapa já trabalham com essa linha de pesquisa. A distância entre os estudos e a aplicação formal, contudo, é muito grande.

Segundo os dois especialistas consultados, o Cerrado, tradicionalmente demarcado pelas plantações de soja, é a grande fronteira para a expansão do trigo no Brasil, embora exista ainda o que ser aumentado na região Sul.

“O Cerrado é uma região muito seca e que vem passando por um estresse hídrico muito forte. Por isso, é preciso desenvolver culturas que resistam à secura, tanto pela falta de água da região como pela inviabilidade econômica e logística de instalar sistemas de irrigação”, conta o pesquisador.

Quanto à necessidade do Brasil tornar-se autossuficiente em trigo, os dois discordam, embora ambos acreditem na necessidade do aumento da produção.

Para Vosnika não é necessário que o Brasil seja autossuficiente, podendo importar e exportar ao mesmo tempo, de acordo com a logística de cada região.

Já para Caerão, ao importar trigo, o Brasil está, evidentemente, pagando por isso, além de estar dependendo da oferta internacional.

“Um setor forte representa a ativação de uma cadeia produtiva, ligando produtores e indústrias, melhorando a economia nacional. Além disso, é uma questão de segurança nacional: para garantir alimento à população, o Brasil não pode ficar na mão de outros países. Se há uma crise na Argentina, o Brasil fica sem pães e massas?”, questiona.

Ele argumenta que os desafios do Brasil estão associados às questões logísticas e burocráticas para facilitar o avanço do trigo nacional.

“Devido ao Custo Brasil, aos insumos e aos gastos de produção, muitas vezes o trigo argentino acaba sendo, em São Paulo, mais barato do que o trigo produzido no Paraná, estado vizinho”, disse ao EFEAgro.

Marcados com: , , , ,
Publicado em Agricultura

Twitter: efeagrobrasil