Mudanças climáticas

Mudanças climáticas obrigarão plantio de café em terrenos mais altos

As colheitas de café de boa qualidade deverão ser feitas no futuro em terrenos 300 metros mais altos que os utilizados atualmente devido às mudanças climáticas.

(Foto: EFE/Roberto Escobar)

O plantio e a colheita de café de boa qualidade deverão ser feitos no futuro em terrenos 300 metros mais altos que os utilizados atualmente devido às mudanças climáticas, alertou nesta quinta-feira o diretor executivo da Associação Coordenadora Indígena e Camponesa Agroflorestal de Honduras (ACICAFOC), Alberto Chinchilla.

“O impacto das mudanças climáticas mudará todos os cultivos, quando chegarmos no ano de 2030, teremos que plantar café de boa qualidade subindo mais 300 metros em altitude em relação aos terrenos usados hoje”, indicou Chinchilla à Efe em Tegucigalpa, capital de Honduras.

O líder cafeeiro acrescentou também que as mudanças climáticas “vão mudar todos os cenários de produção” e que será necessário preparar todos os produtores agrícolas e pecuaristas.

“Se não prepararmos todos igualmente, o impacto será muito forte”, ressaltou Chinchilla, que na semana passada participou da Oficina de Mudança Climática e Cenários Socioeconômicos Futuros em Tegucigalpa para discutir os planos regionais para adaptação agrícola de pequenos produtores hondurenhos.

O evento foi organizado pela ACICAFOC, pela Universidade para a Cooperação Internacional (UCI) e pela Unidade de Agroambiente, Mudança Climática e Gestão de Riscos da Secretaria de Agricultura e Pecuária (SAG) de Honduras, além de outros órgãos.

Também participaram do encontro pequenos produtores de café e cacau do Belize, El Salvador, Honduras, Nicarágua, República Dominicana e Panamá, que expuseram os efeitos das mudanças climáticas nas produções de seus países.

“Temos que conscientizar e preparar as pessoas do campo para que os produtores saibam manejar a situação, porque se houver seca eles não vão sobreviver”, advertiu Chinchilla.

Ele lembra que a oficina tem como objetivo informar os produtores sobre o que acontecerá no futuro com o cacau e o café, para que se preparem.

“Os produtores precisam saber o que vai acontecer com as suas terras, quais os efeitos das mudanças climáticas que os ameaçam” defendeu o especialista costarriquenho após apresentar vários trabalhos no encontro em Honduras.

Na sua opinião, a participação de produtores, especialistas universitários e do Instituto Hondurenho de Café permite que surjam planos estratégicos para o enfrentamento às mudanças climáticas.

Já a secretária da Cooperativa Cafeeira Pech de Desenvolvimento Ltda. (COCAPEDEL), Florinda Duarte, apontou à Efe que as mudanças climáticas acontecem porque “o ser humano não soube cuidar da terra”.

“Se não cuidarmos da terra nós vamos morrer, como quando uma mãe abandona um filho, e este morre de desidratação”, exemplificou Duarte.

A dirigente da COCAPEDEL pertence à etnia Pech, da qual sobrevivem quase 3 mil pessoas distribuídas em 11 comunidades nos departamentos de Olancho, Colón e Gracias a Dios, na porção oriental de Honduras.

Duarte, que é mãe solteira com cinco filhos, disse que só lhe sobrou um pouco mais de meio hectare de cacau no qual ela espera ver frutas por mais cinco anos. Para sobreviver ela se dedica também à costura de “roupas, vestidos, blusas, camisas, calças e o que seja”.

Ela disse que veio a Tegucigalpa especialmente para aprender novidades sobre o cultivo de cacau e café para compartilhar depois com os demais membros da COCAPEDEL.

Com formação formal apenas até a segunda série da educação secundária, Duarte assegurou que a segurança alimentar de sua etnia e de todos os hondurenhos está ameaçada pelas mudanças climáticas.

Dos seus cinco filhos, Duarte explicou que somente a última, de quatro anos, nasceu no hospital, experiência que considerou traumática porque “pensava se ia sair viva disto de ser atendida com um estranho a mim”.

Ela conta que a alimentação dos pech é à base de tubérculos, milho, arroz, feijão e ocasionalmente carnes de alguns animais que caçam nas montanhas, “mas sempre cuidando do bosque e dos animais porque não podemos acabar com tudo que a terra dá aos seres humanos”.

A indígena, que fala e canta com seus filhos no idioma pech, sua língua materna, conta que sua cultura está desaparecendo – o que envolve o uso de plantas medicinais locais. Em Honduras existem ao todo nove grupos étnicos.

 

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