Mulher Campo

Mulheres do campo quebram estereótipos, vislumbram carreira e estão alinhadas à tecnologia

Pesquisa divulgada hoje pela Abag mostra que trabalhadoras rurais priorizam uma vida integrada com o ambiente urbano e a estabilidade financeira

EFE/Narendra Shrestha

Embora o ambiente rural seja comumente visto como mais retrógrado ao urbano, no que se refere à igualdade entre homens e mulheres, as trabalhadoras do campo estão, cada vez mais, deixando responsabilidades tradicionais, como afazeres domésticos e criação dos filhos, para assumir funções produtivas e intermediar o diálogo com as cidades.

Segundo dados divulgados hoje pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), 59% das mulheres do campo são donas ou sócias de propriedades, enquanto 10,4% delas ocupam funções administrativas de empresas ligadas ao campo, como direção e gestão.

Conforme o último levantamento do IBGE (2016), boa parte delas são engenheiras, agrônomas ou produtoras, o que eleva sua participação média na renda familiar a 42,4% do total, número superior aos 40,7% das mulheres da cidade. A Abag constatou que mais da metade delas exerce uma segunda atividade e mantém uma postura empreendedora.

Uma dessas mulheres é a pecuarista Carla Freitas, que administra, desde 1997, a fazenda Bela Vista, em Rondônia. Conforme conta ao EFE Agro, encarou uma série de adversidades para que a propriedade tivesse sucesso após a morte de seu pai, em 1996.

“Morei em Rondônia desde a década de 1980, mas só assumi a fazenda em 1997, com 36 anos. Desde então, passamos por muitas mudanças pontuais, como em 2001, com a minha divisão entre Ribeirão Preto, onde minha família residia, e a fazenda; em 2011, com o meu filho assumindo boa parte das atividades; e com a mudança gradual de pecuária exclusiva para sua integração com a agricultura”, conta.

Como exemplos de seu empreendedorismo, Carla destaca também o lançamento, em sua fazenda, do gado “nelore natural”, além das parcerias que fez com empresas de São Paulo, como a “Novilho Precoce”.

O levantamento da Abag entrevistou 862 mulheres de todas as regiões do país, durante os meses de junho e julho de 2017. Foram contempladas todas as atividades incluídas na cadeia de suprimentos e serviços que atendem às propriedades rurais, além dos negócios ligados a transporte, armazenagem, industrialização, distribuição e comercialização de produtos agrícolas.

Tratando do sexismo no exercício da profissão, 74% das mulheres declararam sentir preconceito por causa de seu gênero, 30% delas considerando-o como evidente. Por outro lado, 61% delas negaram ter qualquer dificuldade de liderança por ser mulher, embora pequenas parcelas tenham acusado desconfianças constrangedoras, relacionadas a conhecimento, habilidade de negociação e ao fato de não ser levada a sério.

Para Carla, o preconceito é vencido com o esforço e trabalho diário da mulher, de maneira a conquistar o respeito do setor agropecuário. “No início de minha administração, eu não possuía muita experiência e, quando decidi que iria assumir e alguns funcionários viram que eu seria a mandatária, muitos pediram demissão, mas isso foi em um momento inicial. Depois, quando comecei a contratar, os trabalhadores já vinham com a ideia de ter uma patroa e não havia problemas”, explica a pecuarista. “A verdade é que o respeito que fui adquirindo, aos poucos, dos funcionários, foi fruto do trabalho que eu demonstrava, procurando fazer tudo de maneira correta e eficaz”.

Quanto à postura do mercado ante a figura da mulher, a administradora sugere que, quando tem consciência de sua capacitação, a mulher deve ignorar os questionamentos ao seu trabalho. “Em algumas situações, me deparei com comentários maldosos e preconceituosos, mas os ignorei completamente e impus meu conhecimento e dedicação. Em Rondônia, por exemplo, ninguém me desrespeita mais, pois veem como funciona minha fazenda. Quando os resultados são mostrados, não há o que falar mal. A única questão é que a mulher, hoje, ainda precisa provar mais do que o homem”, argumenta.

Outra dedução possível dos dados apresentados é a mudança de perspectiva da mulher que vive no ambiente rural. Grande parte das mulheres se declarou como capacitada para exercer posições de liderança e protagonismo, além de não se conformar com as posições estabelecidas, mirando progressões na carreira. A estabilidade financeira, por exemplo, foi apontada como prioridade para 56% das entrevistadas.

Em relação à família, as mulheres do campo a consideram como um ambiente de realização e satisfação (73%), mas não limitam sua vida às prioridades do lar. 64% das entrevistadas, por exemplo, declararam não desejar ter filhos, enquanto apenas 32% os consideram como uma de suas principais preocupações.

“Eu entendo que a sociedade, incluindo tanto o mercado de trabalho como a família, devem respeitar as liberdades da mulher e confiar em suas capacidades. Por um lado, o núcleo familiar não pode exigir total dedicação da mulher, pois ela deve buscar seus sonhos e realizações pessoais, sua autonomia e independência. Por outro, entretanto, é um absurdo que o mercado exija que as mulheres reprimam algo tão natural do sexo feminino, que é a maternidade, ou a posterguem, para que as mulheres dediquem-se exclusivamente ao trabalho. Fui capaz de exercer as duas funções, me orgulho disso, e creio que todas as mulheres podem fazer o mesmo, se desejarem”, debate Carla.

As trabalhadoras rurais demonstram também maior interesse em áreas tecnológicas e corporativas, valorizando a integração dos ambientes rural e urbano em um mundo globalizado. Enquanto 95% delas usam o WhatsApp e 92% o Facebook, mais da metade desejam aumentar seus conhecimentos em gestão de pessoas (57%) e empresarial (54%), áreas que são seguidas  por finanças (33%) e negócios (27%).

No caso de Carla, a tecnologia tem uma grande importância em seu relacionamento com o trabalho. Quando se dividia entre São Paulo e Rondônia, ela cuidava da fazenda, muitas vezes, através do Skype, programa de mensagens de texto, áudio e vídeo. “Estamos na revolução digital, em que todos têm de pensar em incluir conectividade em seus trabalhos, seja para comunicação, seja para os próprios processos produtivos”, defende.

Sobre a formação e o desejo em ampliar seus conhecimentos, a pecuarista conta que, no começo, não sabia muito sobre fazendas e, por isso, contratou um consultor para auxiliá-la. “Ele me ensinou muitas coisas e me indicava frenquentemente cursos e workshops para o aprendizado. Lá, sempre adquiria mais conhecimento sobre o meu trabalho, e assim foi com diversos profissionais que passaram pela propriedade”.

Atualmente, cursando moda aos 56 anos, ela declara que tem muito a aprender ainda, inclusive coisas não ligadas àquilo que fez toda a vida. Além disso, diz se “comprometer em levar conhecimento aos seus comandados”, através de cursos periódicos de reciclagem e aperfeiçoamento.

 

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Publicado em Agricultura

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