Dia Mundial Contra a Monsanto

Sob protestos, celeiro do mundo rende-se aos transgênicos

Legalizado desde 2003 no país, o cultivo de transgênicos está presente em grande parte dos produtos agropecuários brasileiros, com forte presença na cadeia da soja

Grupo de manifestantes distribui material contra o consumo de transgênios na avenida Paulista Foto: EFE/Carlos Villalba

Um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, o Brasil converteu-se nos últimos anos como o primeiro país exportador de carne, aves, suco de laranja e o segundo na exportação de soja e milho.

Para atender a uma demanda alimentar mundial crescente (a organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura, FAO, estima que em 2050 será necessário 60% a mais de comida para alimentar toda a população mundial), o país rende-se a cada dia mais ao uso de tecnologia transgênica.

Legalizado desde 2003 no país, o cultivo de transgênicos está presente em grande parte dos produtos agropecuários brasileiros, com forte presença na cadeia da soja (91% da soja brasileira atualmente é transgênica), produto usado como ração de bovinos e aves – fazendo do país o segundo maior produtor de transgênicos do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos de acordo com o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA).

Segundo estimativas da Sociedade Rural Brasileira, órgão que reúne e representa empresários e produtores do setor, cerca de 123 milhões de hectares de terras teriam sido poupados com o aumento da produção sem expansão da área plantada graças ao uso de transgênicos.

De fato, dados Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) dão conta de que nos últimos 35 anos a área cultivada no país cresceu 248% ante um crescimento da produção de 506% refletido principalmente pelo aumento de 78% na produtividade média da soja, cultivo que ocupa cerca de 54% do total da área destinada ao cultivo de grãos no país e com maior uso de transgenia.

“O advento do transgênico no Brasil deu condições de termos uma produção muito mais eficiente, com menos perdas e com um uso muito menor hoje de agroquímicos porque tudo isso é embutido atualmente no gene da planta”, explica o presidente da Sociedade Rural Brasileira, Gustavo Junqueira.

 “É um pouco de romantismo e nostalgia achar que a comida de antigamente era melhor. O ser humano evoluiu e a comida evoluiu junto”

De acordo com ele, em 1950 a família brasileira gastava cerca de 50% da sua renda com a alimentação. Atualmente esse percentual caiu para 15% de sua renda, revelando um ganho do ponto de vista de alimentação, renda e saúde pra o Brasil.

“Essas sementes, de fato, foram selecionadas na sua melhor qualidade para depois ser inserido biotecnologia. É um pouco de romantismo e nostalgia achar que a comida de antigamente era melhor. O ser humano evoluiu e a comida evoluiu junto”, defende Junqueira.

Esse ganho de produtividade, no entanto, não é unânime no país e é questionado por um pequeno grupo de ativistas que denunciam os potenciais malefícios que a disseminação dos transgênicos causa aos brasileiros.

Reacendido recentemente por conta da aprovação pelo parlamento brasileiro de uma lei que acaba com a rotulagem dos alimentos derivados de transgênicos, o uso da tecnologia traz consigo um elevado custo socioambiental segundo alguns especialistas.

De acordo com o pesquisador da Universidade de Campinas, Mohamed Habib, a tese de que o uso da transgênica aumenta a produtividade está “meio certa”, já que ao que desenvolver uma nova função biológica na planta, a tecnologia, pelo contrário, reduziria a sua produtividade.

“Resistir a herbicidas ou sintetizar toxinas são funções que não têm nada a ver com a produtividade. É óbvio que ao se tornar resistente a pragas o volume colhido será maior”

“Resistir a herbicidas ou sintetizar toxinas são funções que não têm nada a ver com a produtividade. É óbvio que ao se tornar resistente a pragas o volume colhido será maior, mas se considerarmos que a produtividade é medida pelo volume de energia sintetizado pela planta, com mais funções biológicas a produtividade também será reduzida”, explica o engenheiro agrônomo.

Signatário de uma declaração que pede o fim do cultivo de transgênicos no mundo junto com outros 815 cientistas de mais de 80 países, Habib ressalta entre os malefícios do atual posicionamento do país o aumento do uso de agrotóxicos, sobretudo a tolerância à aplicação do Glifosato, herbicida usado em sementes desenvolvidas pela Monsanto, gigante que concentra 90% do mercado de transgênicos no mundo.

“Antes da aprovação dos transgênicos a lei brasileira permitia resíduos de Glifosato de apenas 0,2 partes por milhão nas lavouras brasileiras. Após 2013, pressionado, o Congresso Nacional aprovou uma lei aumentando esse limite para 10 partes por milhão”, conta o pesquisador da Unicamp.

Organizadora da Marcha Mundial Contra a Monsanto em São Paulo, a ambientalista Susana Prizendt ressalta ainda que a aplicação desses venenos têm destruído a microfauna e microflora destas fazendas, tornando o solo dependente do uso de fertilizantes químicos, também nocivos ao meio ambiente.

“O resultado são ervas daninhas com cada vez mais resistência a esses herbicidas, gerando superpragas e quebrando agricultores transgênicos”, destaca Prizendt.

Para a jornalista e também organizadora da marcha, Carolina Ramos, o avanço dos transgênicos no país são um alerta para que a população se mobilize contra o atual modelo de agronegócio.

“O fim da rotulagem e a liberação dos eucaliptos transgênicos deixou claro que precisamos nos posicionar de forma mais organizada e mais combativa”

“O fim da rotulagem e a liberação dos eucaliptos transgênicos deixou claro que precisamos nos posicionar de forma mais organizada e mais combativa até”, comenta Ramos.

Parte do “Dia mundial contra a Monsanto”, a marcha é organizada no país por cerca de 20 coletivos que levantam bandeiras diversas, como a ampliação de parques e a adoção do veganismo, mas sem uma adesão maciça por parte da população até então.

“A maioria das pessoas têm um discurso conformista com relação aos transgênicos. Essa luta passa por uma mudança na forma de estarmos presente no mundo. Enquanto as pessoas não estiverem afim de sair da zona de conforto, elas não mudarão”, lamenta a ativista.

O Efe Agro entrou em contato com a Monsanto, mas a empresa não pode responder até o fechamento desta edição.