EUA ALIMENTAÇÃO

Tribos nativas dos EUA tentam recuperar “soberania alimentar”

O “sistema de comidas” é o processo pelo qual uma comunidade “produz, processa, transporta e consome” os seus próprios alimentos; e isso proporciona a “soberania alimentar”.

EFE/ Arquivo.

Povos nativos dos Estados Unidos estão voltando a cultivar e preparar as suas refeições tradicionais, recuperando a “soberania alimentar” que foi se perdendo nos últimos anos por causa de mudanças sociais, demográficas e geracionais.

Durante anos, tribos como a Santee Sioux, no estado de Nebraska, mantiveram um sistema fechado de alimentos que ajudaram a preservar conhecimentos, valores e a identidade cultural, mas que depois foi diminuindo até, com o tempo, os supermercados se tornarem a principal fonte de aquisição de comida.

De acordo com um estudo do Centro de Assuntos Rurais (CRA) do estado do Nebraska, uma mudança geracional (mais de 60% dos Santee Sioux agora têm menos de 25 anos), a pobreza que afeta 51% da tribo e a incidência de doenças crônicas criaram “várias barreiras” para manter a fidelidade com as próprias regras de alimentação. Os alimentos tradicionais perderam valor religioso, e os jovens deixaram de participar do processo de produção de alimentos, e da tradicional forma de vida dos nativos.

Disposta a reconstruir esse sistema soberano, a tribo Santee Sioux deu início nesta semana a Iniciativa de Soberania Alimentar, que conta com o apoio do CRA de Nebraska, e que defende que um sistema próprio de comida ajuda no desenvolvimento da comunidade.

“A nação Santee Sioux criará uma comunidade mais saudável, revitalizará os seus alimentos tradicionais, criará um sistema alimentar autossuficiente e desenvolverá uma nação mais resistente”, afirma o documento “Apoiando um Futuro Alimentar Saudável e Sustentado na Nação Santee Sioux”, a base do projeto. O “sistema de comidas” é, segundo o CRA, o processo pelo qual uma comunidade “produz, processa, transporta e consome” os seus próprios alimentos; e isso proporciona a “soberania alimentar”, que é a possibilidade de essa comunidade ter o controle todo esse sistema.

O estudo do CRA mostrou que ir ao supermercado é uma tarefa complicada para os membros desta tribo, já que o mais próximo fica a 40 quilômetros do principal assentamento, onde 381 pessoas moram. Outros 400 integrantes estão distribuídos em áreas próximas ao assentamento central no qual praticamente não existe infraestrutura moderna e, de fato, o serviço de ônibus mais perto fica em Sioux City, no estado vizinho de Iowa, e a 175 quilômetros de distância.

De acordo ao estudo, realizado com adultos com idades entre 18 e 77 anos, e dirigido por Becky Keim, 84% dos membros de Santee Sioux disseram carecer de acesso a alimentos a preços justos e 55% disseram que a comunidade não tem acesso suficiente a produtos frescos.

“A produção de alimentos, a arte e outras atividades ainda permanecem, mas as habilidades concretas e específicas praticamente desapareceram entre os Santee Sioux, porque não são mais transmitidas entre as gerações“, disse Keim ao apresentar as conclusões do estudo.

Atualmente, os jovens já não sabem como preparar o solo para o plantio, como combater pragas ou quais técnicas devem ser usadas para preservar os alimentos. Assim, aproximadamente, 17 mil hectares aptos para a produção agrícola e a criação de gado, propriedade dos Santee Sioux, estão em desuso.

Para restabelecer esses conhecimentos, foi criado um grupo de pessoas nativas e não nativas que conhecem o sistema tradicional da tribo para educar as novas gerações. Ao todo, oito de cada dez adultos Santee Sioux estão dispostos a “dedicar tempo e energia” para aprender sobre as suas comidas tradicionais, conservação do meio ambiente, clima, saúde, bem-estar, histórias e doutrinas da tribo.

Além disso, serão criadas organizações locais para a produção e venda de comidas e será estabelecido um banco de sementes para preservar as plantas que os Santee Sioux consideram sagradas.

Outras tribos com maior poder econômico, como Omaha, também de Nebraska; Cherokee, de Oklahoma; e Ojibwe, de Minnesota, há décadas já contam com os próprios sistemas de troca de sementes para reintroduzir as plantas tradicionais nos seus territórios. E todos eles têm a mesma finalidade: “Reunir a comunidade para entender as suas necessidades, desenvolver uma visão de um futuro alimentar melhor e estabelecer os alicerces para alcançar esse futuro”, conforme o estudo do CRA.

Twitter: efeagrobrasil