CANA-DE-AÇÚCAR

Pesquisa usa esgoto doméstico para irrigar cana-de-açúcar

Pesquisa comprovou a segurança do uso do esgoto e atingiu cifras 150% maiores na produtividade da cana-de-açúcar.

Foto: EFE/Mak Remissa

Uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está utilizando esgoto doméstico tratado para irrigar de cana-de-açúcar, comprovando a segurança desse uso na agricultura e aumentando em 150% a produtividade da cana em toneladas por hectare quando comparada com a média nacional (de 80 toneladas/hectare).

Com cifras de 200 toneladas por hectare, a pesquisa atingiu essa melhora porque a “cana não é ,normalmente, uma cultura irrigada”, segundo explicou o professor e orientador do grupo de pesquisa, Edson Matsura.

“Ao fazer uma produção irrigada nós notamos um aumento muito grande na produção, já que removemos o fator da sazonalidade das águas das chuvas que normalmente são as fontes de irrigação para as produções de cana” afirmou Matsura ao EFE Agro.

A escolha da cana-de-açúcar para a pesquisa, segundo ele, aconteceu por se tratar de uma produção forte em todo interior paulista, incluíndo a região de Campinas, e também por “não ser diretamente consumida por seres humanos”, já que a pesquisa ainda não possui autorização sanitária do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA).

“Como se trata de água de reuso do esgoto doméstico, ela sempre terá alguns coliformes, que nós nos esforçamos para remover usando radiação ultravioleta do sol. Se você testar a maioria das águas dos cinturões verdes locais você vai ver que quase todas têm a presença de coliformes” explica Matsura ao destacar também  “uma recusa cultural devido à origem desta água” – uma das principais barreiras enfrentadas pela pesquisa.

“Com essa sazonalidade e falta de água, sabemos que o reuso do esgoto não se trata apenas de ecologia”

O processo utilizado no tratamento consiste na separação dos resíduos líquidos dos sólidos, seguido do uso de plantas aquáticas para a retirada do excesso de substâncias como nitrogênio, sódio, potássio e fósforo – altamente tóxicas para o consumo e para as plantas se aplicadas nas quantidades encontradas no esgoto. A irrigação, então, é feita por meio de gotejamento subterrâneo, para que a água não tenha contato direto com a superfície da planta e para minimizar, assim, possíveis contaminações.

A pesquisa foi feita em meio hectare de cana-de-açúcar e, por ter usado um antigo sistema de tratamento de esgoto da Unicamp, não chegou a contabilizar os custos para a instalação e realização do tratamento dessa água. Matsura, no entanto, defende que a água possui apenas duas utilidades: uma é voltar para o rio e a outra é sua aplicação em outras práticas.

“O retorno do esgoto diretamente para os rios teria um custo ambiental muito alto” explica Matsura ao revelar que no início da pesquisa, no ano de 1999, acreditava-se que se tratava apenas de uma questão ecológica, mas hoje “com essa sazonalidade e falta de água, sabemos que não se trata apenas de ecologia”, ressalta.

“Acredito que essa água vai entrar no agronegócio”, aposta Matsura ao destacar que além da queda no custo da água, há também cortes com custos de adubo que tornam-se desnecessários já que o esgoto tratado apresenta muitos dos nutrientes fundamentais para o crescimento das plantas.

Segundo Matsura, o foco atual da pesquisa é buscar indicadores de qualidade para essa água já que a parte ambiental já está “delineada”, restando apenas cuidar das partes sociais e econômicas do projeto para torná-o sustentável para ser aplicado nas monoculturas do Estado paulista”, explica.

Ele acredita que a pesquisa possa gerar uma mudança cultural sobre a importância da preservação da qualidade das águas, já que “em São Paulo, uma grande parte do esgoto ainda não é tratado e jogado clandestinamente nos rios”, realidade que tem tudo para mudar se depender da pesquisa.

“A sociedade começou a perceber o quanto esses grandes reservatórios de água poluída estão influenciando a vida das pessoas. O simples tratamento dessa água já é muito importante”, comemora o pesquisador.

 

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