Polarização enfraqueceu debate sobre sustentabilidade entre candidatos

O EFEAgro entrevistou André Guimarães, membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e Diretor Executivo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura – movimento multissetorial composto por mais de 170 membros, entre entidades do agronegócio, ONGs de meio ambiente e clima e representantes acadêmicos – tem apresentado um conjunto de 28 propostas relacionadas ao bom uso da terra aos candidatos às eleições deste ano.

Sobre este tema, o EFEAgro entrevistou André Guimarães, membro da Coalizão Brasil e Diretor Executivo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). As propostas podem ser lidas neste link.

Considerando as propostas, em que pontos os candidatos têm acertado seus discursos? E em quais eles têm errado?

André Guimarães: No geral, eles passam longe do tema do uso da terra, e isso vale todos. A polarização política e os assuntos cotidianos, como a segurança e o desemprego, têm dominado os discursos. E essa é uma agenda de médio a longo prazo. Então o tema do bom uso da terra tem sido ignorado.

Houve mudanças em relação às eleições passadas? Os discursos melhoraram, pioraram ou ficaram iguais?

AG: Teve uma piora em relação às últimas eleições. Desde a redemocratização, em 1988, nós tivemos uma ampliação do debate sobre temas sociais e na questão ambiental. Mas nessa eleição tivemos uma piora por conta da polarização política e da pulverização do eleitorado.

As propostas podem ser implementadas pelo executivo e pelo legislativo. Popularmente, costuma-se discutir mais as eleição presidencial. Alguma dessas instâncias de poder preocupa mais que a outra?

A preocupação é com o conjunto da obra. É o arranjo de forças que preocupa. Houve, no passado recente, um desalinhamento entre o congresso e o executivo. Nós esperamos que haja uma maior interligação e integração entre esses poderes, visando o desenvolvimento sustentável do Brasil.

Como foi a elaboração das propostas?

AG: A nossa motivação foi de apresentar propostas para o país, contribuindo para enriquecer o debate na sociedade e para que saiamos da inércia. Nós não podemos esperar o momento de apertar o botão para exercer a democracia.

Essas propostas tiveram como base os documentos que a coalizão já tinha construído e nosso entendimento como bom para o uso da terra brasileira. Nós somos um movimento composto por mais de 170 membros, com grande acúmulo de experiência no uso da terra e entendemos que devemos dar uma contribuição ao país.

Como são as propostas? Quais os eixos e objetivos?

AG: A ideia geral é harmonizar o uso da terra. Sempre houve um conflito: ou se conserva a floresta ou se desenvolve. Esse é um falso paradoxo. Na verdade, nós temos é que conservar a floresta para termos chuva para que assim possamos ter agricultura. São questões que precisam se alinhar lado a lado. Então, nós elaboramos 28 propostas, desde as mais simples, que dependem de decreto, até outras mais complexas, que dependeriam de grandes movimentações políticas, como a questão fundiária. Nós entendemos que todas elas são exequíveis em um ciclo de governo de quatro anos. Se executadas, haverá um salto grande na harmonização do campo.

Elas já foram entregues aos candidatos? Como tem sido a recepção?

AG: Elas já foram entregues para a maioria dos candidatos e estão sendo muito bem recebidas. Estão nos dizendo que elas são de boa qualidade e alguns pretendem incluir nos seus planos de governo. Isso porque são boas propostas para o país e não é um plano partidário.

Qual o papel da população no projeto de vocês?

AG: A população precisa ter um olhar mais estratégico. Dado esse momento de tensionamento político, realmente fica difícil enxergar o que está para além do debate político momentâneo. Precisamos ter uma estratégia de país no longo prazo que esteja ligada com nossas vocações e aptidões. E o bom uso da nossa terra talvez seja a maior vocação do Brasil. Infelizmente não estamos conseguindo fazer isso.

Em escala global, qual a importância do Brasil na busca pela sustentabilidade?

AG: Enquanto país, nós temos dois papéis para com o planeta. O primeiro deles é a questão da segurança alimentar: somos um dos maiores fornecedores de alimentos para o mundo. O segundo é o de mitigar as mudanças climáticas: no Brasil, isso se dá com a diminuição do desmatamento. Precisamos cumprir esses dois papéis de forma não excludente. Nosso desafio é harmonizar o uso da terra cumprindo ambos os papéis, contribuindo para um planeta mais justo e sustentável no futuro.

Twitter: efeagrobrasil