Único motivo para a mudança da embaixada de Israel seria um viés ideológico

O EFEAgro entrevistou Ali Saifi, diretor-executivo da Cdial Halal, sobre as relações comerciais entre o Brasil e os países árabes

A eventual mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv a Jerusalém, projeto do presidente eleito Jair Bolsonaro, alarmou parte do agronegócio nacional. O Brasil é um grande parceiro comercial dos países árabes: de acordo com a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, em 2017, as exportações aos países da Liga Árabe somaram US$ 13,6 bilhões.

Um eventual boicote poderia poderia afetar seriamente a balança comercial brasileira. Após as declarações de Bolsonaro, o Egito cancelou a visita que receberia do chanceler brasileiro Aloysio Nunes – o que o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) minimiza, afirmando se tratar de uma questão de agenda.

Para falar sobre as relações comerciais com países árabes, o EFEAgro entrevistou Ali Saifi, diretor-executivo da Cdial Halal, empresa certificadora de produtos halal, selo referente à produção para culturas islâmicas que inclui exigências como o abate sem sofrimento, feito de acordo com as leis da fé muçulmana.

Quanto essa eventual aproximação com Israel poderia afetar o comércio com países árabes?

Ali Saifi: Nos últimos posicionamentos, ele [Bolsonaro] abrandou um pouco o assunto, então acreditamos em uma reversão dessa proposta. Agora, temos que levar em consideração o sinal que o Egito mandou para nós [ao cancelar a visita do chanceler brasileiro ao país]. Não é qualquer país, ele tem muita influência nos países árabes.

É muito cedo para dizer e eu não represento o governo, mas a relações entre os países árabes e o Brasil sempre foi muito boa e nos ajudou a ter esse superávit de 7 bilhões de dólares por ano. Não queremos que uma decisão fira essa relação.

Que outros países exportadores de produtos halal poderiam crescer com o Brasil perdendo espaço?

AS: Nós temos concorrentes que são os EUA, a Argentina, a Austrália, a Nova Zelândia e a Europa. São produtores importantes no cenário mundial. Agora estamos tentando entrar no mercado da Ásia, na Indonésia, por exemplo, que são mercados da Austrália e Nova Zelândia.

O presidente eleito falava que sua política externa não teria “viés ideológico”. Este tipo de declaração faz sentido diante dessa aproximação de Israel? Existe política externa sem “viés ideológico”?

AS: O único motivo para a mudança [da embaixada] seria um viés ideológico. Todos os governos brasileiros sempre entenderam a importância de qualquer país. O Brasil sempre teve uma posição neutra, em função da paz, e isso sempre foi frutífero para nós.

Que tipo de medidas seriam vantajosas para as relações comerciais entre o Brasil e países árabes?

AS: O Brasil tem feito agendas positivas, mas pode oferecer muito mais. Eles [países árabes] precisam que ofereçamos uma troca de conhecimento. Sempre que possível, eles nos pedem para que a Embrapa os ajude em questões que eles não podem resolver. Temos que criar uma agenda positiva, temos que negociar, não sair apenas vendendo nossos produtos. Não basta despejar o produto em outro país e acabou… queremos uma boa relação, apoiar suas decisões. Precisamos perguntar aos países o que mais podemos fazer por eles.

Em uma transmissão ao vivo por meio das redes sociais, o presidente eleito disse: “criar um cavalo de batalha porque a capital vai sair de Tel Aviv para Jerusalém ou não vai… Vamos parar com essa frescura, pô, parar com essa frescura”. Como você vê uma declaração como essas?

AS: É o perfil dele, o jeito como se comunica. A forma como ele fala não me preocupa, o que importa é se vai mudar a embaixada ou não, como ele já falou: “vai sair ou não vai…”. Acredito que ele tem recebido informações e analisado o mercado.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

AS: Em toda nossa história, sempre o Brasil tomou posição em favor de uma negociação de paz. Torço para continuar essas posições maravilhosas. Em favor de todos, contra qualquer tipo de guerra. Torço para que essa proposta seja revertida porque não traria nada de positivo para o Brasil”.

Twitter: efeagrobrasil