COLÔMBIA

Camponeses colombianos curam feridas do conflito com projetos inovadores

Localizada no departamento de Antioquia, San Carlos, antes campo de batalha de guerrilheiros e paramilitares, hoje é um convite ao descanso e também é sinônimo de progresso.

EFE/ Luis Eduardo Noriega

Em meio a um cenário colorido por árvores frutíferas e montanhas cobertas de vegetação no noroeste da Colômbia está San Carlos, um paraíso cheio de cachoeiras que cicatrizou as feridas do conflito armado no país graças à coragem dos camponeses, que retornaram à região para se dedicar à agricultura e à criação de animais como peixes e porcos.

Localizada no departamento de Antioquia, a cidade, antes campo de batalha de guerrilheiros e paramilitares, hoje é um convite ao descanso e também é sinônimo de progresso. Durante o conflito, travado entre 1985 e 2006, a população de San Carlos caiu de 26 mil para 11 mil.

Bernardo Zuluaga é testemunha da reconstrução. Em sua casa, as fotos na parede contam a tragédia e o renascimento a partir de um programa de suinocultura que tem ajuda do governo colombiano.

“Eu me dedicava a plantar banana, café e também ao gado. Agora estou com a criação e engorda de porcos”, contou à Agência Efe.

Em 2001, Zuluaga, hoje com 62 anos, foi de San Carlos para Medellín, quando paramilitares escolheram a dedo suas vítimas em um ônibus para um massacre que matou um dos irmãos do camponês.

Nessa transição, Zuluaga teve ainda que lutar contra a nostalgia ao encontrar sua antiga casa. “O que meus pais me deixaram estava destruído”, revelou.

Mas hoje, com a nova realidade em San Carlos, o camponês diz que pode dormir até com as portas abertas. Sua casa, antes cercada de minas terrestres, recebe atualmente os vizinhos, que o visitam para comprar os já famosos porcos de sua fazenda.

 

Bernardo Zuluaga. EFE/ Luis Eduardo Noriega

Outra que voltou para reconstruir a vida foi Claridel Galeano, que fugiu de San Carlos em 2003 por causa do conflito armado. Atualmente, sua propriedade é dedicada ao turismo e à piscicultura, com seis tanques que abrigam cerca de seis mil peixes.

Galeano aprendeu os segredos da atividade nos lagos dos vizinhos. E foi além, graças ao projeto apadrinhado pelo programa do governo.
“Inovei. Não queria oferecer só o peixe. Criamos um local de pesca esportiva, onde as pessoas pegam os peixes, os fritam e depois comem.

“Essa ideia funcionou”, revelou à Efe Galeano, que espera receber cerca de 70 visitantes por dia na Semana Santa.

Batizado como “Pesca Esportiva, Sol e Sombra”, o projeto ganhou o nome para lembrar que San Carlos teve seus momentos escuros. Hoje, porém, a propriedade de Galeano recebe turistas colombianos e de outros países, como Estados Unidos, Honduras e até Japão.

“Esse projeto mudou minha vida, não só economicamente, mas também no meu emocional. Deu tudo certo”, afirmou a agora empresária, que só pede para nunca mais viver a violência dos “tempos dolorosos”.

Segundo relatório do Centro Nacional de Memória Histórica, San Carlos foi palco de 33 massacres em um período de dez anos. Além disso, 30 das 74 aldeias do município foram totalmente abandonadas. O documento ainda registra 156 desparecimentos forçados.

Essa situação assustadora de San Carlos, declarado em 2012 como o primeiro município do país livre de minas terrestres, teve impacto especial sobre a família Cuervo Murillo com a morte de dois parentes no massacre de Dos Quebradas, em 2003, quando 18 pessoas foram assinadas pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

O medo fez com que toda a família fugisse. De uma próspera propriedade encravada nas montanhas de San Carlos, os Cuervo Murillo foram para Medellín, onde não havia trabalho para todos.

“O camponês é do campo. Não estávamos acostumados a ficar trancados em um apartamento”, disse Óscar Albeiro Cuervo, agora orgulhoso de seus três mil pés de café, que constituem uma nova oportunidade para ele, a esposa, Blanca Nubia, e a filha.

“Os paramilitares e a guerrilha mataram muita gente. Agora somos felizes e não mudamos de San Carlos por nada”, disse Nubia.

Árvores frutíferas e uma horta caseira completam um cenário que simboliza a esperança não só no sítio dos Cuervos, mas também em uma cidade que tem seu povo como maior riqueza.

“Sonho em fazer minha empresa crescer, oferecer emprego e ajudar as pessoas. San Carlos é uma cidade acolhedora”, declarou Óscar.

 

Óscar Albeiro Cuervo. EFE/ Luis Eduardo Noriega

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