AGRICULTURA DO FUTURO

Documento da Embrapa prevê tendências da agricultura do futuro no Brasil

Foram analisados durante 18 meses sinais e tendências globais e nacionais sobre as principais transformações na agricultura em questões científicas, tecnológicas, sociais, econômicas e e ambientais e seus potenciais impactos.

Foto: Divulgação Flickr

Sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta, fixação biológica de nitrogênio, expansão da produtividade orgânica e tecnologias imersivas no campo mostram-se como tendências já presentes na agricultura brasileira, mas que serão protagonistas para o futuro da produção, como aponta o novo documento “Visão 2030: o futuro da agricultura brasileira”, organizado e lançado recentemente pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Outro fator que aparece nos estudos analisados pela organização é o protagonismo do consumidor, o que de acordo com a Embrapa “acelera movimentos globais em direção à intensificação do uso de plataformas digitais nas relações de consumo, à cocriação de produtos e serviços e à redução do desperdício de alimentos”.

Para a instituição “o crescente nível de escolaridade da população adulta brasileira nas próximas décadas deverá aumentar esse protagonismo, em razão do maior acesso às informações por meio de novas mídias nos meios urbano e rural”, bem como economia digital deverá ser o grande motor da produtividade agrícola.

O Estudo

O documento de 212 páginas teve a colaboração de aproximadamente 400 colaboradores da Embrapa e instituições parceiras. Foram analisados durante 18 meses sinais e tendências globais e nacionais sobre as principais transformações na agricultura em questões científicas, tecnológicas, sociais, econômicas e e ambientais e seus potenciais impactos.

Edson Bolfe, coordenador do Sistema de Inteligência Estratégica da Embrapa (Agropensa) e da produção do documento, diz que “no esforço de análise e de prospecção de cenários buscou-se antever transformações e, assim, contribuir para a definição de diretrizes que orientem a programação de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) de instituições públicas e privadas com foco no desenvolvimento sustentável da agricultura”.

Na Embrapa, vai, particularmente, subsidiar estratégias e prioridades da Empresa, a produção do próximo plano diretor e o trabalho dos 2.448 pesquisadores da Empresa.

O documento traz perspectivas e os principais desafios científicos, tecnológicos e organizacionais baseados em análises do ambiente interno e externo, nacional e internacional.

Megatendências

O estudo destaca sete megatendências: Mudanças Socioeconômicas e Espaciais na Agricultura; Intensificação e Sustentabilidade dos Sistemas de Produção Agrícolas; Mudança do Clima; Riscos na Agricultura; Agregação de Valor nas Cadeias Produtivas Agrícolas; Protagonismo dos Consumidores; e Convergência Tecnológica e de Conhecimentos na Agricultura. A publicação explora aspectos relacionados a cada uma das megatendências e sugere desafios e oportunidades, por exemplo.

Para chegar à identificação das sete megatendências, o trabalho desenvolvido ao longo de mais de um ano, se baseou em sinais e tendências apontados por diferentes setores da sociedade, incluindo atores das cadeias produtivas agrícolas, segmentos da iniciativa privada, do terceiro setor e de outras organizações públicas.

Internamente, estudos realizados no âmbito do Sistema Agropensa, da carteira de projetos e do programa de cooperação internacional da Empresa (Laboratórios Virtuais no Exterior – Labex) forneceram os subsídios para as contribuições e análises de pesquisadores e especialistas que atuam nos mais de 40 centros de pesquisa da Embrapa no País.


Projeções da pesquisa agropecuária para um futuro sustentável 

Tendo em vista os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pelas Nações Unidas, o documento lançado este ano – “Visão 2030: o futuro da agricultura brasileira” – dá continuidade às análises e prospecções futuras consolidadas em duas outras publicações anteriores: “O Futuro do Desenvolvimento Tecnológico da Agricultura Brasileira” (2014), e “Cenários exploratórios para o desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira” (2016).

No primeiro estudo foram indicados os cinco eixos de impacto para orientar a atuação futura da Embrapa. No segundo, identificou-se quatro possíveis cenários para a evolução da agricultura do Brasil a médio e a longo prazo. Dialogando com essas prospecções de forma inovadora, esse terceiro estudo aponta sete megatendências delineadas por aspectos científicos, tecnológicos, socioeconômicos, ambientais e mercadológicos emergentes.

“Tratam-se de indicadores de forças que se formam de maneira lenta, mas geram consequências que perduram por um longo prazo na agricultura”, explica Edson Bolfe.

Além de explorar aspectos específicos que levaram à percepção das sete megatendências, na publicação lançada agora, em 2018, são identificados os grandes desafios delas derivados.

“A partir desses desafios foram feitas análises sobre como poderá ser a agricultura brasileira nos próximos anos. O objetivo é que as análises geradas contribuam para a tomada de decisões estratégicas da Embrapa e parceiros públicos e privados e para o maior desenvolvimento social, econômico e ambiental do Brasil”, finaliza Bolfe.

A trajetória e o atual posicionamento da agricultura brasileira frente às tendências e sinais forneceram as premissas para a condução das análises das megatendências. Entre elas, destacam-se o fato de que o Brasil continuará figurando entre os principais protagonistas mundiais na produção e no comércio de grãos e carnes nos próximos anos e a constatação de que a tecnologia foi responsável pelo alcance dessa posição e continuará funcionando como um vetor transformador.


Contribuições da ciência frente aos desafios 

O Sistema de Inteligência Territorial Estratégica da Macrologística Agropecuária Brasileira (www.embrapa.br/macrologistica), lançado em março, atende, por exemplo, ao desafio de “Ampliar o uso da inteligência territorial estratégica em ações de governança e gestão pública e privada das cadeias produtivas da agricultura”, apontado pelas análises relacionadas à megatendência “Mudanças socioeconômicas e espaciais na agricultura”.

Sistemas de produção intensivos e sustentáveis, soluções resultantes da pesquisa e técnicas que dispensam o uso de insumos químicos integram o conjunto de soluções que fazem frente a desafios impostos pela megatendência “Intensificação e sustentabilidade dos sistemas de produção agrícolas”.

Nesse sentido, um dos principais exemplos de sistemas de produção intensivos e sustentáveis é o de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), implantado, atualmente, em diferentes combinações, em mais de 11 milhões de hectares no Brasil.

Com o audacioso objetivo de chegar a 1 milhão de hectares em 2030, a Rede ILPF constituída em 2012 pela Embrapa e quatro parceiros (Cocamar, John Deere, Soesp, Syngenta),  foi transformada em março em Associação, mudança de status marcada pela adesão de dois novos integrantes: a SOS Mata Atlântica e o Bradesco. Com foco na internacionalização, na agregação de valor por meio da certificação e na inovação, a agora Associação Rede ILPF continuará o trabalho de transferência de tecnologia, capacitação de assistência técnica e de comunicação, buscando aperfeiçoá-lo.

Com foco na mitigação dos efeitos da mudança do clima, uma ferramenta criada pela Embrapa é a Plataforma ABC, que tem como missão articular ações multi-instittucionais de monitoramento da redução das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) dos setores da agropecuária brasileira, sobretudo as reduções derivadas das ações previstas e em execução pelo Plano agricultura de baixa emissão de carbono – Plano ABC).

Entre as soluções resultantes da pesquisa, uma das mais recentes que será apresentada durante a solenidade de 45 Anos da Embrapa no próximo dia 24 é o processo de inoculação de braquiária com Azospirillum que, entre outras vantagens, também traz benefícios ambientais ao favorecer o sequestro de carbono da atmosfera e eliminar a necessidade de aplicação de insumos químicos à lavoura.

Outro exemplo de contribuição da pesquisa agropecuária para o enfrentamento dos desafios que, por sua vez, atende à necessidade de reduzir perdas e desperdício de alimentos por meio do desenvolvimento de novas embalagens é a que resultou na criação de uma película biodegradável.

Funcionando como um revestimento comestível para frutas, no caso do coco verde, a película pode prolongar em até quatro vezes a vida útil do produto. Ao ser adotada este ano pelo mercado, a solução está permitindo que uma fruta tipicamente tropical chegue à Europa atendendo a um mercado consumidor exigente: o revestimento garante a manutenção das características nutricionais do coco natural e a água dentro dele sem alteração de cor ou sabor.

 

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