Energia Eólica

Na Paraíba, agricultor deixa produção convencional para vender vento

Aluguel de terras é responsável por 14% da energia eólica produzida no país

EFE/Sebastiao Moreira

Longe de um Brasil violento e inseguro, Luis Cardoso, o Piúga, recebe com sorrisos qualquer estranho que se aproxime de sua casa, que fica na cidade de Santa Luiza, na Paraíba, oferecendo sombra e água fresca no terraço.

Mas não foi a receptividade que fez o agricultor, de 73 anos, ficar conhecido na região. Piúga tornou-se famoso e atraiu curiosos por deixar de produzir algodão, milho e feijão para vender vento.

Os problemas enfrentados com as fortes secas que dificultam a produção agrícola deram lugar a uma oportunidade gerada pelos ventos fortes e constantes registrados no Nordeste, o que favorece o desenvolvimento de projetos eólicos. A “oferta” abundante do recurso atraiu a indústria e mudou a vida de agricultores como Piúga.

Há cerca de oito anos, Piúga conta que “estranhos” apareceram em sua casa e contaram a ele que queriam comprar vento.
A proposta era instalar três aerogeradores sobre as terras do agricultor, tornando a propriedade uma parte do complexo eólico de Santa Luiza, conduzido pela empresa espanhola Iberdrola, através da filial brasileira Neoenergia.

“Nunca tinha ouvido falar que podíamos vender o vento”, explicou Piúga, ainda incrédulo com a proposta que recebeu.
Para a construção do complexo eólico formado pelos três parques hoje em funcionamento na reunião, a Neoenergia aluga as terras de 23 famílias, e uma delas é a de Piúga.

Não só o agricultor ficou ressabiado com a proposta que recebeu da empresa. Quando contou à esposa que tinha recebido uma oferta para vender vento, ela recebeu a notícia com desconfiança.

“Minha mulher achava que perderíamos o pouco que tínhamos, mas eu já tinha dado minha palavra, não podia voltar atrás”, revelou o agricultor, que agora agradece por ter tomado a decisão.

Piúga é filho de agricultores, mas ficou órfão de pai e mãe aos 14 anos. Depois disso, ele se criou sozinho, junto com os 14 irmãos. A família tinha várias propriedades, que foram divididas entre os filhos. Cada um ficou com 50 hectares.

Foi assim que Piúga começou a trabalhar como agricultor e a plantar algodão, milho e feijão . No entanto, as fortes secas, especialmente as da década de 80, atrapalharam a produção agrícola, trazendo grandes dificuldades à família.

“Ninguém queria essas terras, não serviam para nada. Mas agora há vento, e eu alugo”, afirmou.

Para o agricultor, a ideia de vender vento era “impossível” de ser verdade. No entanto, com a renda que recebe agora com o aluguel de suas terras, Piúga consegue ajudar os filhos e netos.

“Antes isso era uma região seca, e ninguém queria um terreno aqui, mas desde que os moinhos chegaram, todo mundo está interessado. Foi por isso que deixei de trabalhar com algodão para vender vento”, explicou.

Em 2020, a Neoenergia iniciará uma ampliação da usina próxima ao terreno de Piúga para construir mais 15 parques eólicos. Desta forma, o local será o maior complexo do tipo da América Latina.

Segundo relatório da Associação Brasileira de Energia Eólica (AbeEólica), 14% da energia produzida no Brasil é a partir de vendas. No Nordeste, o índice chega a 70%, motivo pelo qual a região começa a atrair uma série de investimentos no setor.

Além disso, o Brasil vem escalando postos no ranking de países mais geram energia eólica no mundo. Atualmente, o país ocupa o oitavo lugar, segundo o Conselho Global de Energia Eólica (GWEC), com 7 mil aerogeradores em funcionamento e 569 parques eólicos, a maior parte deles no Nordeste.

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