MEIO AMBIENTE

Só combater desmatamento não basta para conservar biodiversidade amazônica, aponta estudo

O estudo alerta para como a perturbação causada pelo homem pode ser tão importante quanto o desmatamento para a perda da biodiversidade tropical

Foto: EFE/Marcelo Sayão

Esforços internacionais para a conservação da biodiversidade das florestas tropicais irão falhar se não levarem em consideração o controle da exploração ilegal de madeira, de incêndios florestais e da fragmentação de áreas remanescentes.

A conclusão do estudo, que acaba de ser publicado na revista “Nature”, alerta para como a perturbação causada pelo homem pode ser tão importante quanto o desmatamento para a perda da biodiversidade tropical.

Intitulada ‘Anthropogenic disturbance can be as important as deforestation in driving tropical biodiversity loss’, a pesquisa mediu o impacto geral das perturbações florestais mais comuns – o que inclui exploração madeireira, incêndios e fragmentação de florestas remanescentes – em 1.538 espécies de árvores, 460 de aves e 156 de besouros encontrados na Amazônia do estado do Pará.

Pela primeira vez, pesquisadores de 18 instituições internacionais, incluindo 11 brasileiras, foram capazes de comparar a perda de espécies causada por perturbações humanas com aquelas resultantes da perda de hábitat pelo desmatamento.

Um novo desafio

Esse resultado desafia a atual concepção das estratégias de conservação, que priorizam o combate ao desflorestamento. Os cientistas comprovaram que, para a floresta tropical, os efeitos das perturbações causadas por atividades humanas causam uma perda de biodiversidade tão ostensiva quanto à provocada pelo desmatamento.

Segundo Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental e uma das principais pesquisadoras do projeto, “conseguimos oferecer evidências convincentes de que as iniciativas de conservação amazônica precisam considerar as perturbações florestais e o desmatamento. Sem ações urgentes, a expansão da exploração ilegal de madeira e a ocorrência cada vez maior de incêndios causados pelo homem irão resultar em áreas de florestas tropicais cada vez mais degradadas, conservando apenas uma pequena fração da exuberante diversidade que já abrigaram”.

Quando analisado em conjunto, o efeito das atividades humanas resultantes em perturbações florestais no Pará é equivalente a uma perda adicional de mais de 139 mil quilômetros quadrados de floresta, o que correspondente a todo o desmatamento no estado desde 1988, ano em que o monitoramento oficial começou.

O pesquisador senior do projeto, Toby Gardner, do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), destacou que “as florestas tropicais são um dos mais valiosos tesouros biológicos do planeta. Ao focar exclusivamente nas extensões de floresta remanescentes, sem levar em conta o estado de saúde dessas áreas, as atuais iniciativas de conservação estão colocando em perigo essa riqueza”.

Espécies em risco sofrem mais

Os cientistas também descobriram que espécies sob o risco máximo de extinção foram as mais atingidas pelas perturbações causadas por atividade humana.

Ima Vieira, pesquisadora sênior do Museu Emilio Paraense Goeldi e uma das colaboradoras do projeto destacou que “o estado do Pará abriga mais de 10% das espécies de aves do planeta, muitas das quais endêmicas. Os estudos demonstram que são justamente estas espécies as que estão sofrendo o maior impacto da ação do homem, pois elas não sobrevivem em ambientes com estes níveis de perturbação”.

Políticas públicas

Enquanto a redução do desmatamento é acertadamente o principal foco da maioria das estratégias de conservação em nações tropicais, a condição das florestas remanescentes não costuma ser avaliada ou mesmo controlada por políticas públicas.

“Ações imediatas são necessárias para combater as perturbações florestais em nações tropicais”, explicou Silvio Ferraz, professor do Departamento de Ciências Florestais, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ).

“No caso do Brasil, a situação é ainda mais crítica, já que 40% das florestas tropicais remanescentes da Terra estão aqui”, completou o pesquisador. Ainda que donos de terras na Amazônia brasileira sejam obrigados por lei a manter 80% da cobertura primária em suas propriedades, a nova pesquisa mostrou que, mesmo onde a lei é cumprida, metade do valor potencial de conservação já pode ter sido perdida.

“Estes resultados devem servir de alerta para a comunidade global”, afirma Jos Barlow, o principal autor do estudo. “O Brasil demonstrou uma liderança sem precedentes no combate ao desmatamento na última década. O mesmo nível de liderança é necessário agora para proteger a saúde das florestas restantes nos trópicos. Do contrário, décadas de esforço de conservação terão sido em vão”.

Infelizmente, a rica biodiversidade do Brasil está mais uma vez ameaçada por novas tentativas de mudanças no código florestal. Luiz Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, também integrou a equipe do estudo e destaca: “O Senado brasileiro está propondo uma nova lei que vai permitir produtores se valerem de florestas plantadas, como as monoculturas de eucalipto, para atingir a meta legal de cobertura florestal. Propostas como esta, que ignoram as condições das florestas em questão, podem acelerar a perda de biodiversidade tropical”.

O estudo

O estudo publicado é fruto da Rede Amazônia Sustentável (RAS), um consórcio de instituições brasileiras e estrangeiras, coordenado pela Embrapa Amazônia Oriental, pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, pela Universidade de Lancaster (Reino Unido) e pelo Instituto Ambiental de Estocolmo (Suécia). A RAS é também parte do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia.

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Publicado em Meio ambiente e Tecnologia